quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Losar o ano novo tibetano


Ambiente dentro do mosteiro branco

O novo ano tibetano é o mesmo do ano chinês. Inicia-se este ano na primeira lua nova de Fevereiro. Losar quer dizer “novo” em tibetano.
O primeiro dia do ano tibetano coincidiu com o dia 11 do calendário gregoriano.
Os anos têm sempre correspondência com um animal, sendo este ano o da Serpente de Água. No Tibete e na China estão no ano 2140.
Na véspera do fim do ano, “Nyi Shu Ghu”, os tibetanos concentram-se em dizer adeus a todos os aspectos negativos do ano que termina, fazendo rezas e rituais. Em todos os mosteiros se ouvem cânticos e trompas a chamar os fiéis à oração.
No dia seguinte, primeiro dia do ano, as famílias vestem os seus melhores fatos, são colocadas bandeiras de oração nas janelas e telhados e improvisados altares com velas, incenso e objectos ritualísticos. Os monges visitam as casas desejando que o novo ano traga apenas aspectos positivos e auspiciosos para a vida e casa das famílias.
 Fui convidada a partilhar a primeira refeição do dia em casa do Lama Giang Ciub professor e mestre do meu amigo italiano Daniele. Oferecemos a tradicional kata ao lama que a coloca à volta do nosso pescoço. De seguida somos convidados a sentar à mesa decorada com fruta e outras iguarias. Oferecem-nos vinho de arroz e uma taça de arroz com passas. As mulheres afadigam-se na cozinha para o primeiro almoço do ano.
 Depois de ter almoçado com a minha amiga francesa Sónia, fomos até ao mosteiro Branco receber a bênção do Lama Chokyi Nyma. A atmosfera era de grande alegria e animação e somos recebidas com ofertas de chá e fruta pelos monges.
Acabamos o dia junto à stupa de Boudhanath a fazer koras e a tirar fotografias.

Daniele, Lama Giang Ciub e a sua familia


Daniele e Lama Giang Ciub
Lama Giang Ciub e eu



Tibetana com o seu gorro de pelo


tibetanas com traje de festa


Grande incensário junto á stupa, o cheiro é muito agradável

Comprei estas bandeiras para serem hasteadas na stupa

Sonia e eu no terraço do meu apartamento
Interior do mosteiro branco, as katas sobre a mesa indicam o nº de pessoas que as ofereceram

Lama Chokyi Nyma no interior do Mosteiro Branco

Sonia em frente à Stupa











Final de tarde nas montanhas que circundam Kathmandu

Vista do terraço do meu apartamento





Andar a cavalo em Kathmandu




No sábado de manhã os rapazes convidaram-me para ir andar a cavalo. Pegaram nos arreios e na sela e lá fui atrás deles por montes e vales e atravessando pontes improvisadas, atravessando arrozais  até chegarmos ao terreno onde o cavalo estava a pastar. Com muito cuidado ajudaram-me a subir para o dorso do cavalo e assim ue me viram em cima dele ficaram todos contentes e começaram a passear-me tirando-me imensas fotografias com a minha máquina.
Estão sempre com vontade de me agradar e fazem-no com toda a naturalidade. Foi uma manhã muito divertida!






sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Preciso de amor e carinho





Quando cheguei ao orfanato New Children´s Home, o que mais me impressionou foi a necessidade de amor e carinho destas crianças. Todas me queriam dar a mão, abraçar, falar, sobretudo as mais novas que ainda não conseguem reprimir as emoções.
- Sister, sister!!! Gritavam e agarravam-me a mão e as pernas numa tentativa de me sentir, de receber amor de quem lhes sorri e lhes dá atenção. Mas, elas são tantas e eu apenas tenho duas mãos e duas pernas!
São quarenta e duas crianças! E a maioria entre os 6 e os 12 anos… tão pequeninos ainda!
Saraswoti a minha protegida, corre para mim quando me vê. Pego-a ao colo apesar de ter 8 anos, pois tem peso pluma. Já fala, já tagarela, mas o que mais deseja de mim é pedir-me coisas: biscuits, grapes, bananas… O desejo de comida é tão grande que não consegue conter a vontade de pedir, pedir, pedir.
Os mais velhos tomam conta dos mais novos, mas estes também não sabem o que é amor. No entanto há uma coisa eles têm que aprecio muitíssimo: São muito respeitadores e acatam todos os pedidos dos pais adoptivos: se é preciso faltar à escola para levar um “ irmão” ao hospital prontificam-se logo, se é necessário lavar roupa, lavar loiça, ficar em casa a cozinhar porque a mãe teve de sair, acatam e nunca oiço ninguém refilar ou responder negativamente.
Podem não ter muita atenção e carinho dos pais adoptivos, por serem tantos, mas vê-se que sentem uma grande divida de gratidão para com estes pais que lhes proporcionam uma casa, comida e educação.



Apenas uma casa de banho para todos. Duche nem pensar, uma mangueira no quintal!
Antes das refeições, eu são apenas duas, às 8 da manhã e às 6.30 da tarde, lavam as mãos na mangueira no quintal e as mãos estão sempre geladas. Claro que o ranho nos narizes é uma constante bem como a tosse.  
Pasta de dentes, champô e sabonete já acabaram. Esperam eu algum voluntário lhes ofereça. As condições de higiene são limitadas o dinheiro também.
Outra coisa que me impressionou foi ver as condições em que estas crianças vivem.
As raparigas são catorze e vivem num pequeno quarto com dois beliches de casal que ocupam o espaço todo. Dormem quatro em cada cama. Com os rapazes passa-se o mesmo.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Saraswoti a menina que não queria falar





Saraswati não falava. Se lhe perguntavam alguma coisa olhava o vazio e não respondia. Refugiava-se num mundo de vacuidade para se proteger. Há 3 semanas que estava com febre e não melhorava. Todos os meninos do orfanato comiam, riam e iam à escola, e Saraswati ficava sozinha em casa.
Desde o primeiro momento que senti uma grande compaixão por aquela menina de 8 anos de olhar perdido, que ardia em febre, não falava e ficava debaixo dos cobertores enquanto as outras meninas se vestiam alegremente para ir para a escola.
Ofereci-me logo para a levar ao médico e pagar todas as despesas. À saída de casa a “mãe” disse-lhe para não me largar a mão. A mão dela era como uma folha de árvore murcha, sem vida, sem peso, sem vontade, sem nada querer. Os pés arrastavam-se ao longo do caminho e percebi que se sentia muito cansada.
Perguntava-lhe se estava bem, mas ela nada dizia. Sentia o meu coração muito, muito apertado enquanto nos dirigíamos de autocarro para a clínica.
Quando chegámos a Bouddha, uma zona turística com muitas lojas, perguntei-lhe se queria uma pulseira e ela acenou que sim. Comprei-lhe uma pulseira que enfiou no braço, mas o seu olhar não manifestou grande alteração, embora pudesse sentir o seu contentamento.
Chegámos perto de um bando de pombos onde uma mulher vendia milho, e foi apenas quando lhe comprei milho para dar aos pombos que sorriu pela primeira vez. Estava encantada a ver as aves sobrevoá-la e sorria muito ao de leve, mas sorria.
Na clínica os médicos falavam gentilmente com ela, mas Saraswati não respondia. O olhar continuava perdido no vazio, enquanto os olhos brilhavam de febre.
Foi tirar sangue, fazer radiografia e prova de tuberculina. Nunca pestanejou, nunca deu um ai, nem quando lhe espetaram a agulha no braço por duas vezes.
As lágrimas corriam-me pela cara. Esta menina não tinha emoções. Esta menina não queria sentir nada. Parecia forte por fora, mas tão frágil e vulnerável por dentro, tão à mercê de tudo e de todos. Pensei em todas as meninas como ela que são levadas das ruas ou das suas aldeias para os bordéis na India onde os homens as obrigam a fazer todos os favores sexuais desde terna idade.
Comprei-lhe um livro infantil e quando chegámos a casa já todos os meninos tinham chegado da escola, e pediam a minha atenção para os ajudar nos trabalhos de casa. Foi nessa altura que Sarawati me chamou com um sorriso nos lábios:
-“Sister, sister. Look I can read! E começou a ler o livro em inglês baixinho, com um pequeno sorriso nos lábios e um ar de grande contentamento.

Nessa noite não consegui dormir. Só pensava em ajudar a pequena Saraswati a ficar boa e a voltar a sorrir.


Hoje voltamos ao médico para ver o resultado dos exames. Resolvi estragá-la com mimos. Mal saímos de casa , pediu-me para lhe comprar um pacote de batatas fritas. Percebi que já se sentia mais à vontade comigo. Em Bouddha Fomos ao Flavour´s um restaurante para turistas beber chá e comer bolo de chocolate. Depois do médico fomos a minha casa onde fiz esparguete com molho de tomate e azeitonas,que devorou  embora não tivesse gostado das azeitonas. Descansou na minha cama e percebi que estava muito contente de ver o meu quarto e o apartamento. Como chovia e tinha os pés molhados comprei-lhe uns sapatos imitação da Nike em cor-de-rosa que adorou, umas meias quentes com um urso e uns ganchos da Hello Kitty. Compramos mais um livro. Estraguei-a com mimos, como se fosse minha filha. Esta menina podia ser minha filha, podia ser filha de qualquer um de nós…mas quis o destino que os seus pais não pudessem cuidar dela; o pai passava longos períodos longe de casa a trabalhar na India e a mãe enlouqueceu, andando com Sarawati bébé nas licheiras à procura de comida. Saraswati é uma das milhares de crianças nepalesas desprovidas de amor e cuidados maternos.
Prometi a mim mesma que enquanto aqui estivesse a iria proteger e mimar.
Quem sabe qual será o seu destino…