sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Losar o ano novo tibetano
| Ambiente dentro do mosteiro branco |
O novo ano tibetano é o mesmo do ano chinês. Inicia-se este
ano na primeira lua nova de Fevereiro. Losar
quer dizer “novo” em tibetano.
O primeiro dia do ano tibetano coincidiu com o dia 11 do
calendário gregoriano.
Os anos têm sempre correspondência com um animal, sendo este
ano o da Serpente de Água. No Tibete e na China estão no ano 2140.
Na véspera do fim do ano, “Nyi Shu Ghu”, os tibetanos concentram-se
em dizer adeus a todos os aspectos negativos do ano que termina, fazendo rezas
e rituais. Em todos os mosteiros se ouvem cânticos e trompas a chamar os fiéis
à oração.
No dia seguinte, primeiro dia do ano, as famílias vestem os
seus melhores fatos, são colocadas bandeiras de oração nas janelas e telhados e
improvisados altares com velas, incenso e objectos ritualísticos. Os monges
visitam as casas desejando que o novo ano traga apenas aspectos positivos e
auspiciosos para a vida e casa das famílias.
Fui convidada a partilhar a primeira refeição do dia em casa
do Lama Giang Ciub professor e mestre do meu amigo italiano Daniele. Oferecemos
a tradicional kata ao lama que a coloca à volta do nosso pescoço. De seguida
somos convidados a sentar à mesa decorada com fruta e outras iguarias.
Oferecem-nos vinho de arroz e uma taça de arroz com passas. As mulheres
afadigam-se na cozinha para o primeiro almoço do ano.
Depois de ter almoçado com a minha amiga francesa Sónia,
fomos até ao mosteiro Branco receber a bênção do Lama Chokyi Nyma. A atmosfera
era de grande alegria e animação e somos recebidas com ofertas de chá e fruta
pelos monges.
Acabamos o dia junto à stupa de Boudhanath a fazer koras e a tirar fotografias.
| Daniele, Lama Giang Ciub e a sua familia |
| Daniele e Lama Giang Ciub |
| Lama Giang Ciub e eu |
| Tibetana com o seu gorro de pelo |
| tibetanas com traje de festa |
| Grande incensário junto á stupa, o cheiro é muito agradável |
| Comprei estas bandeiras para serem hasteadas na stupa |
| Sonia e eu no terraço do meu apartamento |
| Interior do mosteiro branco, as katas sobre a mesa indicam o nº de pessoas que as ofereceram |
| Lama Chokyi Nyma no interior do Mosteiro Branco |
| Sonia em frente à Stupa |
| Final de tarde nas montanhas que circundam Kathmandu |
| Vista do terraço do meu apartamento |
Andar a cavalo em Kathmandu
No sábado de manhã os rapazes
convidaram-me para ir andar a cavalo. Pegaram nos arreios e na sela e lá fui atrás deles por montes e vales e
atravessando pontes improvisadas, atravessando arrozais até chegarmos ao terreno onde o cavalo estava a pastar. Com muito cuidado ajudaram-me a subir para o dorso do cavalo e assim ue me viram em cima dele ficaram todos contentes e começaram a passear-me tirando-me imensas
fotografias com a minha máquina.
Estão sempre com vontade de me agradar
e fazem-no com toda a naturalidade. Foi uma manhã muito divertida!
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Preciso de amor e carinho
Quando cheguei ao orfanato New
Children´s Home, o que mais me impressionou foi a necessidade de amor e carinho
destas crianças. Todas me queriam dar a mão, abraçar, falar, sobretudo as mais
novas que ainda não conseguem reprimir as emoções.
- Sister, sister!!! Gritavam e
agarravam-me a mão e as pernas numa tentativa de me sentir, de receber amor de
quem lhes sorri e lhes dá atenção. Mas, elas são tantas e eu apenas tenho duas
mãos e duas pernas!
São quarenta e duas crianças! E a
maioria entre os 6 e os 12 anos… tão pequeninos ainda!
Saraswoti a minha protegida,
corre para mim quando me vê. Pego-a ao colo apesar de ter 8 anos, pois tem peso
pluma. Já fala, já tagarela, mas o que mais deseja de mim é pedir-me coisas: biscuits, grapes, bananas… O desejo de
comida é tão grande que não consegue conter a vontade de pedir, pedir, pedir.
Os mais velhos tomam conta dos
mais novos, mas estes também não sabem o que é amor. No entanto há uma coisa
eles têm que aprecio muitíssimo: São muito respeitadores e acatam todos os
pedidos dos pais adoptivos: se é preciso faltar à escola para levar um “ irmão”
ao hospital prontificam-se logo, se é necessário lavar roupa, lavar loiça,
ficar em casa a cozinhar porque a mãe teve de sair, acatam e nunca oiço ninguém
refilar ou responder negativamente.
Podem não ter muita atenção e
carinho dos pais adoptivos, por serem tantos, mas vê-se que sentem uma grande
divida de gratidão para com estes pais que lhes proporcionam uma casa, comida e
educação.
Antes das refeições, eu são
apenas duas, às 8 da manhã e às 6.30 da tarde, lavam as mãos na mangueira no
quintal e as mãos estão sempre geladas. Claro que o ranho nos narizes é uma
constante bem como a tosse.
Pasta de dentes, champô e
sabonete já acabaram. Esperam eu algum voluntário lhes ofereça. As condições de
higiene são limitadas o dinheiro também.
Outra coisa que me impressionou
foi ver as condições em que estas crianças vivem.
As raparigas são catorze e vivem
num pequeno quarto com dois beliches de casal que ocupam o espaço todo. Dormem
quatro em cada cama. Com os rapazes passa-se o mesmo.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Saraswoti a menina que não queria falar
Saraswati não falava. Se lhe perguntavam
alguma coisa olhava o vazio e não respondia. Refugiava-se num mundo de
vacuidade para se proteger. Há 3 semanas que estava com febre e não melhorava.
Todos os meninos do orfanato comiam, riam e iam à escola, e Saraswati ficava
sozinha em casa.
Desde o primeiro momento que
senti uma grande compaixão por aquela menina de 8 anos de olhar perdido, que
ardia em febre, não falava e ficava debaixo dos cobertores enquanto as outras
meninas se vestiam alegremente para ir para a escola.
Ofereci-me logo para a levar ao
médico e pagar todas as despesas. À saída de casa a “mãe” disse-lhe para não me
largar a mão. A mão dela era como uma folha de árvore murcha, sem vida, sem
peso, sem vontade, sem nada querer. Os pés arrastavam-se ao longo do caminho e
percebi que se sentia muito cansada.
Perguntava-lhe se estava bem, mas
ela nada dizia. Sentia o meu coração muito, muito apertado enquanto nos
dirigíamos de autocarro para a clínica.
Quando chegámos a Bouddha, uma
zona turística com muitas lojas, perguntei-lhe se queria uma pulseira e ela
acenou que sim. Comprei-lhe uma pulseira que enfiou no braço, mas o seu
olhar não manifestou grande alteração, embora pudesse sentir o seu
contentamento.
Chegámos perto de um bando de
pombos onde uma mulher vendia milho, e foi apenas quando lhe comprei milho para
dar aos pombos que sorriu pela primeira vez. Estava encantada a ver as aves
sobrevoá-la e sorria muito ao de leve, mas sorria.
Na clínica os médicos falavam
gentilmente com ela, mas Saraswati não respondia. O olhar continuava perdido no
vazio, enquanto os olhos brilhavam de febre.
Foi tirar sangue, fazer radiografia
e prova de tuberculina. Nunca pestanejou, nunca deu um ai, nem quando lhe
espetaram a agulha no braço por duas vezes.
As lágrimas corriam-me pela cara.
Esta menina não tinha emoções. Esta menina não queria sentir nada. Parecia
forte por fora, mas tão frágil e vulnerável por dentro, tão à mercê de tudo e
de todos. Pensei em todas as meninas como ela que são levadas das ruas ou das
suas aldeias para os bordéis na India onde os homens as obrigam a fazer todos
os favores sexuais desde terna idade.
Comprei-lhe um livro infantil e
quando chegámos a casa já todos os
meninos tinham chegado da escola, e pediam a minha atenção para os ajudar nos
trabalhos de casa. Foi nessa altura que Sarawati me chamou com um sorriso nos
lábios:
-“Sister, sister. Look I can read! E
começou a ler o livro em inglês baixinho, com um pequeno sorriso nos lábios e
um ar de grande contentamento.
Nessa noite não consegui dormir.
Só pensava em ajudar a pequena Saraswati a ficar boa e a voltar a sorrir.
Hoje voltamos ao médico para ver
o resultado dos exames. Resolvi estragá-la com mimos. Mal saímos de casa ,
pediu-me para lhe comprar um pacote de batatas fritas. Percebi que já se sentia
mais à vontade comigo. Em Bouddha Fomos ao Flavour´s
um restaurante para turistas beber chá e comer bolo de chocolate. Depois do
médico fomos a minha casa onde fiz esparguete com molho de tomate e azeitonas,que
devorou embora não tivesse gostado das
azeitonas. Descansou na minha cama e percebi que estava muito contente de ver o
meu quarto e o apartamento. Como chovia e tinha os pés molhados comprei-lhe
uns sapatos imitação da Nike em cor-de-rosa que adorou, umas meias quentes com
um urso e uns ganchos da Hello Kitty. Compramos mais um livro. Estraguei-a com
mimos, como se fosse minha filha. Esta menina podia ser minha filha, podia ser
filha de qualquer um de nós…mas quis o destino que os seus pais não pudessem
cuidar dela; o pai passava longos períodos longe
de casa a trabalhar na India e a mãe enlouqueceu, andando com Sarawati bébé nas licheiras à procura de comida. Saraswati é uma das milhares de crianças nepalesas desprovidas de amor e
cuidados maternos.
Prometi a mim mesma que enquanto
aqui estivesse a iria proteger e mimar.
Quem sabe qual será o seu
destino…
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