Saraswati não falava. Se lhe perguntavam
alguma coisa olhava o vazio e não respondia. Refugiava-se num mundo de
vacuidade para se proteger. Há 3 semanas que estava com febre e não melhorava.
Todos os meninos do orfanato comiam, riam e iam à escola, e Saraswati ficava
sozinha em casa.
Desde o primeiro momento que
senti uma grande compaixão por aquela menina de 8 anos de olhar perdido, que
ardia em febre, não falava e ficava debaixo dos cobertores enquanto as outras
meninas se vestiam alegremente para ir para a escola.
Ofereci-me logo para a levar ao
médico e pagar todas as despesas. À saída de casa a “mãe” disse-lhe para não me
largar a mão. A mão dela era como uma folha de árvore murcha, sem vida, sem
peso, sem vontade, sem nada querer. Os pés arrastavam-se ao longo do caminho e
percebi que se sentia muito cansada.
Perguntava-lhe se estava bem, mas
ela nada dizia. Sentia o meu coração muito, muito apertado enquanto nos
dirigíamos de autocarro para a clínica.
Quando chegámos a Bouddha, uma
zona turística com muitas lojas, perguntei-lhe se queria uma pulseira e ela
acenou que sim. Comprei-lhe uma pulseira que enfiou no braço, mas o seu
olhar não manifestou grande alteração, embora pudesse sentir o seu
contentamento.
Chegámos perto de um bando de
pombos onde uma mulher vendia milho, e foi apenas quando lhe comprei milho para
dar aos pombos que sorriu pela primeira vez. Estava encantada a ver as aves
sobrevoá-la e sorria muito ao de leve, mas sorria.
Na clínica os médicos falavam
gentilmente com ela, mas Saraswati não respondia. O olhar continuava perdido no
vazio, enquanto os olhos brilhavam de febre.
Foi tirar sangue, fazer radiografia
e prova de tuberculina. Nunca pestanejou, nunca deu um ai, nem quando lhe
espetaram a agulha no braço por duas vezes.
As lágrimas corriam-me pela cara.
Esta menina não tinha emoções. Esta menina não queria sentir nada. Parecia
forte por fora, mas tão frágil e vulnerável por dentro, tão à mercê de tudo e
de todos. Pensei em todas as meninas como ela que são levadas das ruas ou das
suas aldeias para os bordéis na India onde os homens as obrigam a fazer todos
os favores sexuais desde terna idade.
Comprei-lhe um livro infantil e
quando chegámos a casa já todos os
meninos tinham chegado da escola, e pediam a minha atenção para os ajudar nos
trabalhos de casa. Foi nessa altura que Sarawati me chamou com um sorriso nos
lábios:
-“Sister, sister. Look I can read! E
começou a ler o livro em inglês baixinho, com um pequeno sorriso nos lábios e
um ar de grande contentamento.
Nessa noite não consegui dormir.
Só pensava em ajudar a pequena Saraswati a ficar boa e a voltar a sorrir.
Hoje voltamos ao médico para ver
o resultado dos exames. Resolvi estragá-la com mimos. Mal saímos de casa ,
pediu-me para lhe comprar um pacote de batatas fritas. Percebi que já se sentia
mais à vontade comigo. Em Bouddha Fomos ao Flavour´s
um restaurante para turistas beber chá e comer bolo de chocolate. Depois do
médico fomos a minha casa onde fiz esparguete com molho de tomate e azeitonas,que
devorou embora não tivesse gostado das
azeitonas. Descansou na minha cama e percebi que estava muito contente de ver o
meu quarto e o apartamento. Como chovia e tinha os pés molhados comprei-lhe
uns sapatos imitação da Nike em cor-de-rosa que adorou, umas meias quentes com
um urso e uns ganchos da Hello Kitty. Compramos mais um livro. Estraguei-a com
mimos, como se fosse minha filha. Esta menina podia ser minha filha, podia ser
filha de qualquer um de nós…mas quis o destino que os seus pais não pudessem
cuidar dela; o pai passava longos períodos longe
de casa a trabalhar na India e a mãe enlouqueceu, andando com Sarawati bébé nas licheiras à procura de comida. Saraswati é uma das milhares de crianças nepalesas desprovidas de amor e
cuidados maternos.
Prometi a mim mesma que enquanto
aqui estivesse a iria proteger e mimar.
Quem sabe qual será o seu
destino…
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